A Revista Inter-Legere é uma publicação de periodicidade semestral do Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Tem a missão de divulgar produções acadêmicas na área de Ciências
Sociais e afins, visa o diálogo com as demais instituições; difundir pesquisas; experiências pedagógicas; de extensão
universitária e de orientações acadêmicas.
APRESENTAÇÃO DO DÔSSIE CIBERCULTURA
"Época de polegarzinhas
(Serres). Época de cabeças fora do pescoço e postas às mãos dos cibersujeitos
contemporâneos. Como Ulisses cibernéticos navegamos mares com máquinas e
existências liquefeitas. Falamos e amamos avatares como duplos de experiências.
Cutucamos perfis de amigos, curtimos fotos, postagens e formamos associações
como esferas (Sloterdijk) diádicas, isto é, pares de indivíduos conectados e,
ao mesmo tempo, singularizados em seus ambientes virtuais. Somos fusões de
corpos com máquinas inteligentes, pois falamos e amamos as Samanthas e
conversamos com as Siris e as recomendamos como legítimas outras de afetos.
Fazemos sexo,
consultamos o tempo e as horas e, também, nos encantamos pelas vozes e
humanidade dos sistemas. Impossível ficarmos sozinhos! Temos o mundo na ponta
dos dedos e pela simulação dos sentidos, destacadamente a visão e a audição.
Muitas vezes o que
vemos são fantasias de rostos, configurando rostidades (Deleuze) vazias. Nos
dizeres do escritor Milan Kundera, a internet é uma imensa multidão sem rosto.
Nesta multidão há aqueles que se associam e compartilham iniciativas
civilizadoras e solidárias. Agem a partir de uma ética do dom. Trocam
conhecimentos e, claro, são remunerados e reconhecidos por isso. Podemos citar
iniciativas de hackers que expressam ações dadivosas como antídotos aos crackers,
sobretudo em relação à prevenção dos bancos de dados de empresas e burocracias
estatais. Recentemente podemos destacar as iniciativas de Julian Assange, do
Wikileaks e Edward Snowden, ex-representante da CIA, que quebraram sistemas de
informação de alguns países e divulgaram na rede. Se por um lado a internet é
potência includente, por outro, também é tribunal de julgamentos do outro.
Linchamentos de trajetórias
a partir de postagens que destilam ódios. Como apregoa o rebelde artista Tom
Zé, não escapamos ao "Tribunal do Facebook". Mesmo que defendamos a
livre expressão na Rede, achamos que a mesma não pode ser um
território sem regime de regulamentação jurídica e política. Neste sentido, o
Brasil tem assumido o protagonismo mundial com a aprovação do Marco Civil da
Internet pelo Congresso Nacional e sancionado pela presidente Dilma Rousseff.
Portanto, "deus não está morto" nem podemos empunhar
"revólveres" e atirarmos a esmo nos mares cibernéticos. Quem é o outro
que nos afeta? Que relações devemos estabelecer com o mundo dos objetos? Que
afetos seremos capazes de experimentar? Que política de civilização as redes
sociais da internet são capazes de construir? Como polegarzinhas e ou
rolezinhos, devemos incorporar de uma vez por todas a cibercultura. Eis o
convite que os autores do dossiê fazem a vocês leitores."
Texto do Professor Dr. Alex Galeno, editor-chefe.
Membro da Comissão Editorial da
Revista Científica Inter-Legere - PPGCS
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